Seus alunos de 5ª e 6ª série questionam
o porquê que se escreve? O que um escritor tem a dizer? Seus filhos,
sobrinhos ou vizinhos entre 9 e 11 anos querem escrever mas não sabem
por onde começar? Quem sabe o livro O mistério do
caderninho preto de Ruth Rocha (Editora Ática, 96 páginas,
R$ 16,50) não possa despertar a curiosidade deles?
É claro que apesar da faixa etária
citada (9 a 11 anos - 5ª e 6ª série) esse livro de Ruth
Rocha é interessante para todas as idades. O título do primeiro
capítulo "Vamos escrever um livro?" já nos transporta para
o universo da escrita. Maria Emília, 15 anos, resolve escrever um
livro junto com seu amigo Pedro. Os dois são apaixonados pela leitura:
"O que eu gosto mesmo, que nunca me cansa é ler" fala Maria
Emília. Logo na primeira página estabelece-se a relação
entre ler e escrever. É necessário ler muito, conhecer vários
autores para ter o que dizer, o que escrever. Em sala de aula essa já
pode ser a primeira discussão: O que temos lido? Por que é importante
ser um bom leitor para escrever com competência? É possível
ser um bom escritor sem lermos muito?
Através do processo de escrita de Maria Emília
e Pedro perpassam as dificuldades que todo escritor enfrenta: o que escrever?
Como? O que é desnecessário dizer? Que personagens construirão
meu texto? Maria Emília e Pedro resolvem escrever um livro sobre um
caderninho muito suspeito de um professor.
" - ... E por que foi que
você escolheu dois personagens principais? É porque parece nós
dois?
- Não, é porque
assim eles podem discutir tudo.." (pág. 16)
A construção
e reconstrução constante do texto, a intertextualidade e a
relação ficção-realidade são temas que
podem ser explorados através do livro. Ao invés de discutir
teoricamente o que é intertextualidade, por exemplo, você, professor,
pode discutir com seus alunso como é essa relação entre
os textos a partir do próprio livro. Maria Emília e Pedro citam
vários outros textos como Alice no país das maravilhas
e os trazem para a construção do seu próprio livro:
" - Depois a gente
vê. Como é que a gente começa?
- Eu estou lembrando
da Alice no país das maravilhas - disse o Pedro.
- O quê?
- Aquele pedaço
em que o Coelho Branco pergunta ao rei: "Com licença de Vossa Majestade,
devo começar por onde?" E o rei responde: "Comece pelo começo,
vá até o fim. Então, pare".
- Pois vamos começar.
Afinal, "é caminhando que se faz o caminho..."
Agora se você
acha que seus alunos (filhos, sobrinhos ou vizinhos...) não vão
se interessar por essa história de escrever um livro, engana-se!
O livro é uma aventura com mistérios e surpresas, o que todo
jovem a-do-ra! E se ele se envolver com a história, ele pode ser a
fonte de diversas outras leituras. O que não falta na história
são "sugestões intra-textuais"...
"- Esse negócio
de nome de personagem é engraçado. A gente sempre esbarra nisso...
O ideal seria pôr nomes que quisessem dizer alguma coisa. Como em
Alice e Ulisses, da Ana Maria Machado. Tá na cara que
Alice é inspirada em Alice no país das maravilhas. Ela
é corajosa, se atira nas aventuras, enquanto o Ulisses é prudente,
é esperto...como o Ulisses da Odisséia." (pág.
27 e 29)
Agora aposto que
até você já está curioso(a) como o livro, não?
Não perca tempo afinal livro não tem idade! É uma leitura
interessante para todos...
Valéria de Oliveira
Alves
Julho/2004