Mário Quintana e seu Caderno H
Valéria de Oliveira Alves
Junho/2004
Quem já teve oportunidade de ler o livro Caderno H de Mário Quintana (Editora Globo, 1ª edição: 1973) sabe que está diante de uma grande obra da literatura contemporânea (pós-moderna? Deixemos as classificações para os teóricos). O olhar sensível e único da realidade nos vem por meio de uma escrita lírica, multiforme e enxuta. Seu estilo é considerado como a poética do mínimo (Minimalismo), é o gosto pela redução, pela brevidade: escrever o máximo com o mínimo de palavras.
É importante contextualizar a obra: os textos foram publicados na imprensa desde 1943 e só trinta anos depois foram reunidos em um livro. O título Caderno H foi justificado pelo próprio autor quando vivo: "Todas as coisas acabam sendo escritas na última hora, na hora h, na hora final". Esse contexto já nos antecipa algumas características da obra: são anotações esparsas, concisas, fragmentadas que mesclam os gêneros lírico, épico e narrativo. Em uma mesma página podemos encontrar tipos de textos diferentes: poemas em verso, poemas em prosa (a chamada "Prosa poética"), críticas, ensaios, aforismos, epigramas, citações, pequenas narrativas, cartas... A mesclagem de estilo, a fragmentação, os diferentes tipos de textos, essa liberdade de expressão são características marcantes do Modernismo e Pós-Modernismo. É importante notar, entretanto, que o leitor atento encontra nesse livro influências de outros estilos: Barroco, Romantismo, Simbolismo e até do Surrealismo. Falar mais sobre isso requer um estudo mais aprofundado e extremamente interessante: quem se candidata?
Não poderíamos deixar de falar da metalinguagem e da intertextualidade em Caderno H. O texto traz diversas "investigações" sobre a poesia, o poeta, a leitura e a escrita. A atração pela função metalingüística é clara: está no primeiro e no último texto do livro e perpassa toda a obra:A intertextualidade é para Quintana um rico recurso de composição. Sua obra traz a literatura brasileira (os românticos, os personagens de Machado de Assis, Rubem Braga, Cecília Meireles) e universal (Os Lusíadas, Marques de Sade, Balzac...). Além de estabelecer uma relação com outras obras, Caderno H também interage com outras artes (pintura, escultura, cinema, teatro), com as ciências (História, Filosofia) e com a Mitologia.TALVEZ
Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitações às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens. (pág. 81)
ESTILO
Deficiência que faz com que um autor só consiga escrever como pode. (pág. 182)
LEITURAS
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar. Que idéia foi essa do teu professor?
Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.
Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho. (pág. 7)
Caderno H é um livro de amplos temas: encontramos críticas ao mundo contemporâneo, reflexões sobre o tempo, as pessoas, as paixões, a urbanidade, a natureza...ESVAZIAMENTOÉ um livro fascinante, daqueles que lemos e relemos, que nos tira um riso de lado ou deixa nosso olhar no horizonte. Um livro mesmo de cabeceira (para os sonhadores ou apaixonados por Quintana) ou de escrivaninha (para quem prefere estudar e descobrir os recursos que o tornam uma obra literária.
Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas. (pág. 6)
CONFUSÃO
Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e a outra na do Futuro. Quanto ao Presente - ah! - esse nunca está em casa. (pág. 95)
A VOZParênteses: Se você já leu ou não gosta do estilo de Mário Quintana e esperava um texto que trouxesse críticas à obra do escritor, fique tranqüilo: esse é só um artigo literário, um olhar (no caso o meu mas baseado também em diversos estudiosos) sobre a obra. O Sitedeliteratura está aberto também a outros olhares...
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras. (pág. 76)
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