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A crítica no Modernismo
(Com base no texto de Eliane Zagury)

     Houve no Modernismo uma atitude crítica assumida e realizada honestamente por artigos em jornal e em revista. Essa atitude crítica do artista estava presente não só no momento de criação, mas também como um dever permanente de vigilância estética.
     É importante eliminar as comparações entre a crítica de Mário e de Oswald de Andrade. Havia uma diferença que tinha relação com o temperamento e o modo como cada um agia, mas ambas foram importantes. Eles, de certa forma, se complementavam.
     A crítica de Mário de Andrade tinha uma certa "função didática", pois seu objetivo era "alertar o autor quanto a algum ponto negativo de sua obra" ou " explicar, para o leitor, os valores estéticos em questão". Era uma crítica " essencialmente analítica".
    A crítica de Oswald teve um função de agitar, provocar atitude mental,  "fecundamente criadora de atitudes, no calor da polêmica". Foi uma crítica sintética e desaforada, que não tinha nada de leviano.
     Mário de Andrade fazia também uma crítica dos críticos e chamava a atenção para a necessidade do crítico de não ser condescendente, mesmo que se torne incívil ou antipático. Entretanto, a certa altura de suas críticas ele percebe que talvez os defeitos de um artista não são necessariamente um defeito, mas sim caracteres, da mesma forma como o são as qualidades. E até diz:

 "Estou convencido que tem defeitos que o artista em vez de corrigir deve acentuar. Porque acentuam o artista também".

     O valor do trabalho crítico do Modernismo foi reconhecido até mesmo por Mário de Andrade que percebeu a importância de criar uma nova mentalidade brasileira.

 "... se permanecerem dessa fase que foi eminentemente de ordem crítica, que foi de pesquisa e experiência, que foi um movimento preparatório destruidor de tabus, treinador do gosto público, arador dos terrenos, se restarem na permanência da literatura nacional três nomes que sejam, o Modernismo já terá feito mais do que lhe competia. ... o Modernismo foi um trabalho pragmatista, preparador e provocador de um espírito inexistente então, de caráter revolucionário e libertário."

    As propostas de escrita apresentada por Mário de Andrade em seu "Prefácio Interessantíssimo" são:

- Escrever uma literatura despreocupada em satisfazer o leitor ou com  a aceitação de sua obra.  Para quem o aceita, maiores detalhes e conclusões não lhes farão falta. Para quem o rejeita, maiores explicações nem serão ouvidas.

- Escrever sem pensar e  sem premeditar. Depois seria repensada a obra, no intuito de corrigí-la e justificar sua criação perante si.

- Uma escrita despreocupada em ser completamente “ moderna”, uma vez que os próprios idealizadores  deste Modernismo não o compreendiam totalmente. O próprio Mário se considerava um “passadista confesso”.

- Despreocupação em pertencer a este ou àquele momento ou estilo, principalmente no que se refere à poesia. “A poesia tende a despojar o homem  de todos os seus aspectos contigentes e efêmeros, para apanhar nele a humanidade...”

- O poeta não é nada divino e não é perfeito ao escrever.

    Mário de Andrade diz no “Prefácio Interessantíssimo” que é um “passadista confesso” (pois, segundo ele, não há como libertar-se de uma só vez das teorias-avós que bebeu). Ele diz ainda não ser representante da tendência Moderna (que não compreende bem). Mas logo percebe-se que a verdade é outra: ele com certeza ainda não “libertou-se” das tendências passadas, pois estas ele as utiliza como corpus para um repensar, um reformular da nova tendência então deflagrada. É a partir da análise crítica das obras produzidas anteriormente, de suas “falhas” e de seus pontos positivos que se cria, no mundo contemporâneo, uma nova consciência.
 

CONCLUSÃO

Não ataquei nem aplaudi: me pensei.”
Mário de Andrade

      Mário realmente parece importar-se com a forma e o conteúdo do que escreve. No “Prefácio...” ele deixa claro que pode até escrever, de início, levado por uma súbita inspiração; mas logo depois “pensa” tudo o que escreveu, fazendo uma espécie de “revisão” do que lhe veio à mente. Ou seja:  o intelectual sobrepuja o sentimental.
     Tendo por base a crítica de Zagury podemos inferir que o movimento Modernista trouxe aos nossos dias (me refiro àqueles dias) uma forma muito mais intelectual de pensar e repensar  as artes. É a crítica de um homem consciente da evolução de seu tempo, e mais: da evolução dos tempos. Mário fez alusão a tudo isso quando escreveu o “Prefácio”. Ele deixou explícito que analisaria tudo o que tinha: tanto o que recebeu antes (nos períodos anteriores ao Modernismo) como o que estava produzindo no presente. Tudo é um objeto de análise crítica. Os pontos de encontro tanto quanto os pontos de tensão são campo fértil para o pensamento. Mário entendia tanto a situação na qual se encontrava e tinha tanta visão crítica que chegou a dizer: “Não ataquei nem aplaudi: me pensei”. Ou seja, pensou o homem de seu tempo e lugar através do outro, fazendo uma espécie de releitura, de deglutição de tudo, dando forma cada vez mais nítida à nova tendência que se instaurava.
Sendo assim, o Movimento Modernista é, por excelência, um momento de análise crítica; tempo de repensar e de trazer à nossa realidade tudo que possa ser útil para sua melhor compreensão e evolução. A ruptura foi e representou exatamente isso: o início de um pensamento mais crítico e abrangente,  não se detendo apenas a seu tempo, mas fazendo uso e considerações de tudo o que já foi produzido num passado até então um pouco confuso.

(Valéria de Oliveira Alves)
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