Dois
perdidos numa noite suja é
uma peça do autor Plínio Marcos, também conhecido
por outros textos igualmente fortes como por exemplo, Navalha
na carne e Barrela. Escrita no ano de 1966, a peça
foi apresentada pela primeira vez para uma platéia pequena,
no Bar Ponto de Encontro.
Sobre o autor:
nascido em 29 de outubro de 1935, em Santos, Plínio Marcos
estreou como dramaturgo em 1957, aos 22 anos, apresentando Barrela
ao público, durante o II Festival Nacional de Teatro de Estudantes,
organizado por Paschoal Carlos Magno. A peça provocou escândalos,
mas foi em 1966 que o autor se tornaria conhecido e respeitado nacionalmente,
com Dois perdidos numa noite suja. Depois, um longo
roteiro de censuras, prisões e peças: Navalha
na carne (1967), Balbina de Iansã
(1970), Quando as máquinas param (1971), Abajur
lilás (1975), Querô (1979).
A partir da década de 80, suas peças abraçaram
temas religiosos e esotéricos, como Madame Blavatsky
(1985) e A mancha roxa (1988). Foram mais de quarenta
anos de criação que certamente não cessariam:
em 97 ele anunciava em entrevista que estava escrevendo outras peças,
Seja você mesmo (infantil) e O bote
da loba. Estas duas obras ficaram inacabadas.
Enredo:
A peça é inspirada no conto O terror de Roma,
do italiano Alberto Moravia. Paco e Tonho dividem um quarto em uma
hospedaria barata e durante o dia trabalham no mercado, como carregadores.
As personagens mantêm uma relação conflituosa,
e sempre estão discutindo sobre suas vidas, trabalho e perspectivas.
O tema da marginalidade permeia todo o texto, ficando muito próximo
de outros trabalhos do autor, como Navalha na carne.
Tonho se lamenta por não possuir um par de sapatos decente,
fator que considera diretamente ligado a sua condição
de pobreza. Ele inveja o seu companheiro de quarto, Paco, por possuir
bom par de sapatos e este, vive a provocar Tonho chamando-o de homossexual,
mesmo considerando-o parceiro. Paco, que no passado havia trabalhado
como flautista, certa noite, teve sua flauta roubada num momento de
embriaguez. Por fim, na tentativa de dar mais dignidade as suas vidas,
ambos são compelidos à realização de um
ato criminoso, que culmina com o assassinato trágico de Paco
pelas mãos de Tonho.
Estrutura:
a peça Dois perdidos numa noite suja é
dividida em dois atos, sendo o primeiro, extenso, dotado de cinco
quadros. O segundo, mais tenso e dinâmico, apresenta-se com
apenas um quadro. Os acontecimentos são lineares, sem uso de
flashblacks, mesmo quando histórias passadas sejam contadas
por Paco em alguns momentos. Interessante perceber que apesar de ter
sido considerada uma representação de Nelson Rodrigues,
as rubricas da peça são simplórias, talvez mais
impactantes se fossem bem exploradas, como o mestre Nelson Rodrigues
faz com maestria, por exemplo, em O Beijo no asfalto.
Contexto histórico:
a contracultura é um movimento que tem seu auge na década
de 60, quando teve lugar um estilo de mobilização e
contestação social e com ele novos meios de comunicação
em massa. Jovens inovando estilos, voltando-se mais para o anti-social
aos olhos das famílias mais conservadoras, com um espírito
mais libertário, resumindo como uma cultura underground, cultura
alternativa ou cultura marginal, focada principalmente nas transformações
da consciência, dos valores e do comportamento, na busca de
outros espaços e novos canais de expressão para o indivíduo
e pequenas realidades do cotidiano.
Surgiu então a Contracultura que pode ser definida como um
ideário altercador que questiona valores centrais vigentes
e instituídos na cultura ocidental. Justamente por causa disso,
são pessoas que costumam se excluir socialmente e alguns se
negam a se adaptarem as visões aceitas pelo mundo. Com o vultoso
crescimento dos meios de comunicação, a difusão
de normas, valores, gostos e padrões de comportamento se libertavam
das amarras tradicionais e locais – como a religiosa e a familiar
–, ganhando uma dimensão mais universal e aproximando
a juventude de todo o globo, de uma maior integração
cultural e humana. Destarte, a contracultura desenvolveu-se na América
Latina, Europa e principalmente nos EUA onde as pessoas buscavam valores
novos. E nesse contexto, Plinio Marcos mantém-se inserido.
Outras linguagens:
A peça foi adaptada para o cinema duas vezes, sendo a primeira
no ano de 1970 sob a direção de Braz Chediak e a mais
recente no ano de 2002 sob a direção de José
Joffily. É uma das peças mais famosas de Plínio,
tendo sido montada inúmeras vezes tanto no Brasil como em outros
países. Aspectos de analise crítica: analisando o enredo
junto ao texto do escritor italiano Alberto Moravia, pode-se perceber
que a peça aproxima-se por tratar do absurdo das relações
humanas em situações alvitantes.
Paco e Tonho
são a base da pirâmide da sociedade. Se o par de sapatos
“maneiros” representam o desejo de subir na escala social,
a flauta e o revólver, citados por diversas vezes no texto
também possuem representações simbólicas
atenuantes.
Quando Paco está
falando com Tonho sobre os sapatos: