Sitedeliteratura
www.sitedeliteratura.com

A mulher que escreveu a Bíblia de Moacyr Scliar:

o romance no livro e nos palcos

por Valéria de Oliveira Alves

 
 

A cidade de Belo Horizonte foi agraciada neste mês de maio com a encenação da peça A mulher que escreveu a Bíblia baseada no livro de mesmo nome de Moacyr Scliar que ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance em 2000. A deliciosa narrativa encanta e faz rir no livro e em cena.

A peça é um monólogo da atriz Inez Viana, que foi indicada ao Prêmio Shell 2008 de melhor atriz, e está viajando por todo o Brasil. Com direção de Guilherme Piva, a peça tem um cenário vazio com apenas uma pedra e alguns pergaminhos. E começa com um prólogo: uma mulher contemporânea descobre com um terapeuta de vidas passadas que foi uma das 700 esposas do Rei Salomão. Era a mais feia de todas, mas tinha uma habilidade única: sabia ler e escrever. Após descobrir que a esposa feia escreve de forma envolvente, o monarca dá a ela a missão de escrever a História da Humanidade.

Moacyr Scliar é gaúcho de origem judaica e já tem obras traduzidas em mais de 12 idiomas, além de adaptações para o cinema e a tv. São 74 obras com várias famosas como a coletânea de contos "A orelha de Van Gogh" (ganhadora do prêmio Casa de Las Américas), o romance "Sonhos tropicais" (baseado na vida de Oswaldo Cruz) e "A majestade do Xingu" (baseado em Noel Nuttels). O autor é ocupante da cadeira nº 31 na Academia Brasileira de Letras desde 2003.

O romance encanta pela leveza, humor e imaginação. É, ao mesmo tempo, sátira e aventura. Na verdade, tudo começou com o norte-americano Harold Bloom em The book of J. Bloom levanta a surpreendente tese de que a primeira versão da Bíblia hebraica teria sido escrita por uma mulher, na segunda metade do século X a.C. Moacyr Scliar, então, recria o cotidiano da corte de Salomão com seu hárem de centenas de esposas e concubinas e oferece novas versões de célebres episódios bíblicos. O escritor usa a malícia e a irreverência para dar voz e mostrar simpatia pelos excluídos de todas as épocas e lugares. Eis o início da história (após o prólogo da mulher contemporânea):

"A feiúra é fundamental, ao menos para o entendimento desta história. É feia, esta que vos fala. Muito feia. Feia contida ou feia furiosa, feia envergonhada ou feia assumida, feia modesta ou feia orgulhosa, feia triste ou feia alegre, feia frustrada ou feia satisfeita - feia, sempre feia." (p. 15)

 

Durante toda a história nos sentimos cúmplices da feia. Torcemos por ela, apesar de rir de seus desabafos e das situações constrangedoras em que se envolve. Acabamos fascinados pela história e não conseguimos parar de ler. Não perca a oportunidade de ver a peça quando estiver em sua cidade e, claro, leia o livro e pense no poder da escrita que ultrapassa todos os tempos...

 

Leia mais sobre Moacyr Scliar em:

http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=488&sid=298

 

Valéria de Oliveira Alves - 22/05/09

Voltar à página principal

Sitedeliteratura© 2002 - 2009 : Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo deste site
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do SitedeLiteratura.com