Meu
Sitedeliteratura
www.sitedeliteratura.com
Novo livro de J.M. Coetzee: À espera dos bárbaros
por Adriana Chavez
J. M. Coetzee nasceu na Cidade do Cabo, África do Sul, em 1940. Morou na Inglaterra, lecionou nos Estados Unidos e voltou à cidade natal em 1984, onde viveu até se mudar para a Austrália, em 2002. Recebeu duas vezes o Booker Prize, por Vida e época de Michael K (1983) e Desonra (1999). Em 2003, ganhou o Nobel. É autor ainda de A vida dos animais, O mestre de Petersburgo, Elizabeth Costello, Juventude, entre outros. Coetzee e sua obra ficaram conhecidos no Brasil em 1999. Com isso, seus romances começaram a ser traduzidos, e não apenas os mais recentes. Prova disso é À espera dos bárbaros, que acaba de chegar às livrarias. Bem verdade que este romance já havia sido publicado por aqui, porém a visibilidade era mínima, posto que, hoje, não há quem o encontre nem mesmo em sebos. O que conta, porém, é o fato de o romance de Coetzee ser uma demonstração de que o gênio do escritor prescinde e precede os prêmios que vieram ao longo de sua trajetória.
A trama do livro se passa na África do Sul, durante o período do Apartheid, no início dos anos 80. Coetzee não dá essa informação, no entanto, os leitores são levados a essa interpretação a partir dos elementos oferecidos. E nesse ponto surge o primeiro grande destaque da obra: as descrições. Se o leitor imagina algo relacionado às perspectivas de ambiente ou de espaço, acertou em partes. Há, além disso, um detalhamento no tocante ao tema, essa luta, inicialmente surda, mas que logo ganhará som e fúria, à medida que os acontecimentos tomarem corpo. De início, vemos um magistrado que lida com os aspectos burocráticos de um vilarejo, mas cujo principal ofício é cuidar para que as sentenças sejam julgadas da melhor maneira possível, sem necessariamente o envolvimento dos juízes no caso. Nenhuma dessas ocupações, no entanto, fazem a cabeça do magistrado - o narrador da história. Aparentemente, sua preocupação é puramente material; e não só: seu apetite sexual parece mais conservado do que nunca, e veja que ele se trata de um senhor já no tocante de sua existência. O que de fato acontece é uma espécie de revelação de condições de maus-tratos e tortura a que os suspeitos, considerados bárbaros, eram vítimas desde o instante da prisão.
Que o leitor não espere um livro sobre causas humanitárias, daqueles que merecem ser premiados pela ONU por seu engajamento socialmente responsável, para utilizar uma nomenclatura da moda. O que se lê é um romance bem articulado e, também por isso, sem maiores considerações sobre a condição humana ou sobre a Convenção de Genebra. Por esse motivo, a personagem de Coetzee não fica indignada porque assim clama o seu campo de dilema profissional, mas porque o que ele vê lhe causa estupor. E há também um outro fator, de ordem mais sentimental.
COETZEE, John Maxwell. À espera dos bárbaros. São Paulo: Cia. das Letras, 2006. 208 pp.
Adriana Chavez, revisora de textos literários, atuante no meio editorial infantil, estudante de Letras com ênfase em Literatura, na Universidade Bandeirantes de São Paulo. Minha maior paixão são as palavras, seja por meio de leitura ou escrita.