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Os limites entre autor e narrador em “O evangelho segundo Jesus Cristo” de José Saramago
Valéria de Oliveira Alves
Introdução
O evangelho segundo Jesus Cristo conta a conhecida história de Jesus Cristo: do nascimento à morte. No entanto, como o próprio titulo sugere, é um evangelho que pretende contar a história do homem Jesus Cristo. O romance desacraliza o discurso judaico-cristão preenchendo as lacunas, próprias de um texto mítico, com a realidade humana. O texto se torna, assim, irônico, pois desconstrói o texto sagrado através do incremento de detalhes tipicamente humanos.“...José, perplexo, olhou o vulto da mulher, estranhando-lhe o sono pesado, ela que o mais ligeiro ruído fazia despertar, como um pássaro. ... Estará mal, pensou, mas eis que um sinal de urgência o distraiu da preocupação incipiente, uma instante necessidade de urinar, também ela muito fora do costume...” (Saramago, pág. 23)Nessa cena logo do segundo capítulo podemos perceber como Saramago preenche as lacunas do texto mítico com detalhes do cotidiano das pessoas. Ele se preocupa em descrever como é o sono de Maria e ainda compará-lo com o dos pássaros e vai além ao citar que José levanta-se no meio da noite não por receber um chamado divino, mas simplesmente por vontade de urinar. É o rebaixamento que ocorre em todo o romance.
A história contada dialoga com o texto bíblico e a idéia é justamente suplementar a verdade bíblica e não negá-la. A narrativa sagrada que usa a palavra una e totalizadora tem um caráter autoritário. Já o texto de Saramago tem um caráter dialógico e é apenas mais uma versão que busca entender os fatos.
A narração é feita através dos fatos míticos que aparecem descontextualizados. A ironia se dá no encadeamento que o narrador dá aos fatos. A posição que o próprio narrador toma dos fatos narrados é um elemento importante que cria não só mais ironia, como também nos remete ao seu papel no romance e à sua ligação com o autor. E são esses elementos que serão discutidos neste trabalho.“ ... em O evangelho segundo Jesus Cristo não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão...”Esta frase dita no discurso de José Saramago quando recebeu o título de Doutor Honoris Causa na UFMG, em 1999, nos ajudará a refletir a figura do narrador no romance O evangelho segundo Jesus Cristo e o conflituoso limite entre autor e narrador, tão discutido em diversos estudos literários atualmente.
O narrador
O narrador do romance é alguém que não só vê, mas também observa, comenta, interpreta, relata e escreve. É um narrador de múltiplas competências como nos fala Agripina Carriço Vieira:
“Para falar do narrador saramaguiano, precisamos de desenvolver o conceito, de forma a podermos aceder à sua imensa riqueza. Proponho pois que seja desdobrado segundo as funções que vai desempenhando ao longo da narração, assumindo-se multifacetado, polifônico e multifuncional”É o que podemos ver no trecho abaixo:
“Não faltará já por aí quem esteja protestando que semelhantes miudezas exegéticas em nada contribuem para a inteligência de uma história afinal arquiconhecida, mas ao narrador deste evangelho não parece que seja a mesma coisa, tanto no que toca ao passado como no que ao futuro há-de tocar...” (Saramago, pág. 127)O narrador do romance não só narra uma história, mas tem consciência dos caminhos que utiliza (consciência ficcional) e comenta-os. Várias vezes no romance ele faz uma parada para comentar como anda seu texto e se posiciona defendendo-se ou explicando-se. Sem dúvida, o narrador saramaguiano não é neutro, nem é só um personagem que vive a história contada. Ele tem uma distância crítica em relação aos fatos narrados e usa com competência recursos para a ironia e a ambigüidade.
Posição do narrador
É importante observar que o narrador do romance não está presente no momento em que a história acontece, isto é, há 2000 anos atrás. O narrador está no presente, é um homem do nosso tempo.
“Porventura parecem tais suposições inadequadas, não só à pessoa, mas também ao tempo e ao lugar, ousando imaginar sentimentos modernos e complexos na cabeça de um aldeão palestino nascido tantos anos antes de Freud, Jüng, Groddeck e Lacan terem vindo ao mundo...” (Saramago, pág. 200)O trecho citado nos mostra que o narrador está nos dias de hoje e pode, através do seu conhecimento histórico, olhar e analisar os fatos contados a partir do nosso contexto social e cultural atual. Sua reflexão sobre a história que conta leva em consideração tudo o que já foi estudado nas ciências humanas atualmente (na Psicologia, no caso do trecho citado) . Seu olhar é um “olhar moderno”.
“O remorso de Deus e o remorso de José eram um só remorso, e se naqueles antigos tempos já se dizia, Deus não dorme, hoje estamos em boas condições de saber porquê, Não dorme porque cometeu uma falta que nem a homem é perdoável.” (Saramago, pág. 131, grifos meus)
Observamos nesse trecho a posição em que o narrador se coloca (junto ao leitor) no tempo presente (além do advérbio temos o tempo verbal) e seu olhar sobre os “antigos tempos”, isto é, o passado da sua história contada.
O narrador não usa nenhum recurso para aproximá-lo das cenas como testemunha, faz questão de deixar clara sua posição no presente. Mais à frente veremos que este será um ponto importante na relação autor-narrador.
Pacto ficcional para garantir a narração
Um recurso encontrado em diversos romances é o pacto entre narrador e leitor. Esse pacto também ocorre entre o narrador do O evangelho segundo Jesus Cristo e seu leitor. Temos nesse romance, entretanto, um pacto diferente, pois o narrador não quer convencer o leitor da veracidade de sua história, mas ao contrário, quer deixar claro e lembrar sempre ao seu leitor o espaço ficcional.
“Dizem os entendidos nas regras de bem contar contos que os encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula importância, a fim de que o herói da história não se veja transformado em um ser de excepção a quem tudo poderá acontecer na vida, salvo vulgaridades. E também dizem que é esse o processo narrativo que melhor serve o sempre desejado efeito de verosimilhança, pois se o episódio imaginado e descrito não é nem poderá tornar-se nunca em facto, em dado da realidade, e nela tomar lugar, ao menos que seja capaz de o parecer, não como no relato presente, em que de modo tão manifesto se abusou da confiança do leitor...” (Saramago, pág. 222)Nesse trecho vemos o narrador reafirmar com seu leitor o pacto ficcional, isto é, o narrador lembra ao leitor que tudo não passa de ficção. Ele ainda vai além, pois fala das estratégias que deveria usar para que sua narrativa se tornasse boa (os encontros decisivos não poderiam vir soltos, no acaso) e ironiza o fato de não usá-las e acabar abusando do leitor.
Outra estratégia que o narrador usa é antecipar acontecimentos futuros.“... e já esta outra pobre criatura teria rendido o ânimo, rogando que ali a deixassem ficar, na berma da estrada, à espera da sua hora, que sabemos está para breve...” (Saramago, pág. 55)Vemos aqui que o narrador já antecipa o fato que o nascimento de Jesus logo irá ocorrer e faz o leitor cúmplice do fato. Através do tempo verbal, vemos, mais uma vez, a posição no presente do narrador, fato que também coloca-o próximo ao seu leitor (que aqui está incluído junto com o narrador nesse verbo em primeira pessoa do plural).
Os limites entre autor-narrador
Tudo o que já foi comentado até agora acerca do narrador nos faz ver que o limite entre autor e narrador neste romance é na verdade muito tênue. O narrador não pode ser confundido com uma personagem, pois sua posição no presente o distancia dos fatos ocorridos no passado. O seu pacto com o leitor também não é para garantir a veracidade de sua história, mas para garantir que seu leitor tenha sempre consciência que o seu texto é apenas ficção.“Estando a sua vida no princípio, que são treze anos, é de prever que o futuro lhe haja reservado horas mais alegres ou tristes que esta, mais felizes ou desgraçadas, mais amenas ou trágicas, mas este é o instante que escolheríamos para nós, a cidade adormecida, o sol parado, a luz intangível, um rapazinho a olhar as casas, enrolado numa manta e com um alforge aos pés, e o mundo todo, o de perto e o de longe, suspenso, à espera. Não é possível, ele próprio já se moveu, o instante veio e passou, o tempo leva-nos até onde uma memória se inventa, foi assim, não foi assim, tudo é o que dissermos que foi.” (Saramago, págs. 203 e 204)O narrador declara a todo momento para o seu leitor que os fatos contados foram escolhidos, recortados. É uma visão dos fatos, uma versão dos acontecimentos. O que está aparecendo como fato ocorrido, ocorre pois está sendo enunciado. O leitor não pode ser ingênuo pensando que os fatos contados ocorreram daquele jeito e que o narrador apenas está descrevendo-os. O narrador é aquele que escolhe um ângulo e separa os fatos que são mais interessantes para “montar” sua história.
Estes fatos nos leva a ver que o narrador no texto não é uma personagem. Na verdade, ele confunde-se com o autor, aquele que escreve a história e tem sua autoria. O autor está sempre no presente e escreve a história a partir de toda sua bagagem cultural. Sua ligação com o leitor é justamente para garantir seu trabalho como escritor, como ficcionista. Nestes pontos os recursos utilizados pelo narrador ao longo da obra, podem ser considerados recursos do próprio autor.
Saramago deixa clara sua posição de não acreditar numa separação entre narrador e autor:
“...a figura do narrador não existe de facto, e que só o autor – repito, só o autor – exerce real função narrativa na obra de ficção, qualquer que ela seja, romance, conto ou teatro (onde está o narrador numa obra teatral?), e quem sabe até se na própria poesia, que, tanto quanto sou capaz de entender, representa a ficção suprema, a ficção das ficções” (Discurso de Saramago, 1999).Não é o objetivo deste trabalho discutir a existência ou não do narrador nos estudos literários, mas sim discutir que neste romance de Saramago a distância entre narrador e autor é muito pequena. O que, aliás, pode ser o objetivo do próprio autor.
Figurações autorais
Como podemos, então, verificar que o autor se coloca dentro de sua própria obra? Saramago faz questão de estar em sua obra, ou, como já foi citado na introdução desse trabalho, ele é todo sua obra.“O que digo é que o autor está no livro todo, que o autor é todo o livro, mesmo quando o livro não conseguiu ser todo o autor”. (Discurso de Saramago, 1999).
No romance O evangelho segundo Jesus Cristo, a intenção do autor é ser visto e reconhecido ao longo do texto. O narrador faz comentários que ligam diversos momentos da obra deixando claro para o leitor o seu controle, enquanto autor, de todo o texto, além da própria criação do contexto de sua narração.“Extemporâneas e fora de propósito à primeira vista, estas considerações devem ser recebidas como pertinentíssimas, tendo em conta que é graças a elas que nos será possível chegar à infirmação objectiva daquilo que a alguns espíritos tanto agradaria encontrar aqui, por exemplo, imaginar os nossos viajantes, sozinhos,... “ (Saramago, pág. 54)Quando o narrador fala nesse trecho, mas parece o próprio autor que fala de sua expectativa quanto aos leitores. Esse “aqui” não se refere à enunciação, à história contada, mas sim ao livro. O autor-narrador resolve deixar claro o porquê de suas considerações, que, como ele mesmo diz, são “pertinentíssimas”, e dizem respeito à obra como um todo.
Saramago faz questão de ter consciência de sua obra e para ele a figura do narrador é uma forma de transferir a responsabilidade do que é dito a uma figura secundária:“... também me pergunto se a resignação ou a indiferença com que o autor, hoje, parece aceitar a “usurpação”, por um narrador academicamente abençoado, da matéria, da circunstância e do espaço narrativos que em tempos anteriores lhe eram exclusiva e inapelavelmente imputados, não será, no fim de contas, uma expressão, mais ou menos assumida, de um certo grau de abdicação, certamente não só literária, de responsabilidades que lhe seriam próprias.” (Discurso de Saramago, 1999)>Saramago faz questão de se responsabilizar não só pelo livro, mas também pelo modo como a história é contada, isto é, pelo papel de narrador. Ele sai da posição de um autor distante que só aparece na capa do livro e nas entrelinhas, para se colocar inteiro na obra.
“Quando ao narrador, se depois disto ainda houver quem o defenda, que poderá ele ser senão a mais insignificante personagem de uma história que não é a sua?” (Discurso de Saramago, 1999)Talvez por tudo isso seja melhor falarmos de um autor-narrador para esse romance de Saramago, pois a história que ele nos conta não é uma história do que viveu ou viu alguém viver, mas uma história de sua memória e de suas reflexões acerca do mundo moderno.
Conclusão
Após este estudo do limite entre o autor e o narrador de O evangelho segundo Jesus Cristo não pretendo chegar a uma conclusão e decretar o fim da morte do narrador, ou demonstrar o narrador escondido que Saramago não viu. O objetivo do trabalho foi apenas refletir sobre essas instâncias dentro do que o romance nos traz e também com as declarações do próprio autor da obra.
Em um estudo literário não se pode transferir dados da vida pessoal do autor para dentro da obra e a preocupação aqui foi justamente de estudar o narrador e depois procurar demonstrar com os exemplos do texto as reflexões levantadas sobre esse autor-narrador. As declarações do autor não foram citadas para legitimar o estudo, mas sim pela curiosidade em encontrar no próprio autor as reflexões acerca da sua obra e do seu fazer literário.
O que acredito é que o autor até cria no romance um espaço para o narrador, mas ele não o deixa controlar a história e assume o comando por trás dos panos. Saramago faz questão de se colocar na obra e as reflexões que aparecem ao longo do romance (meta-textos) são melhor entendidas se considerarmos um autor-narrador e não só um narrador.
Bibliografia
FLORES, Maria da Conceição. “A transgressão iniciática de Jesus segundo José Saramago”. In: Boletim do CESP. V.19, n.24, jan./jun. 1999.
SARAMAGO, José. Doutor Honoris Causa da UFMG. Belo Horizonte: UFMG, Faculdade de Letras, 1999. (Discurso)
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1991.
VIEIRA, Agripina Carriço. “Da história ao indivíduo ou da excepção ao banal na escrita de Saramago”. In: Colóquio Letras
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