Literatura russa:
Um pouco de Sigismund Krzyzanowski
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A Editora 34 lançou no Brasil a Coleção Leste na década de 90 com o objetivo de trazer para o leitor brasileiro autores do Leste Europeu. Para quem procura uma literatura de boa qualidade essa é uma ótima sugestão. São diversos volumes que incluem os famosos Dostoievski, Tchekhov e Aleksandr Puchkin e alguns desconhecidos no mercado editorial brasileiro como o tcheco Karel Tchapék e o russo de origem polonesa Sigismund Krzyzanowki.
É de Krzyzanowski que vou falar. Na verdade não dele, mas do livro O marcador de página (Editora 34 - 157 páginas - 1997 - R$ 21,00) dessa Coleção Leste. Estava na livraria procurando algum livro interessante e cheguei na seção "Literatura Russa". Foi com surpresa que me deparei com o título e resolvi ler a contracapa:
"Certa vez, indo casualmente dar uma espiada num sarau literário, o escritor, atônito, dá de cara com seu personagem. Este quer escapulir, mas o escritor, me parece, agarra-o pelo ombro e pelo cotovelo, assim - e lhe diz: 'Escute, aqui entre nós, você não é humano, e sim...' Como resultado, ambos decidem daí para a frente não mais se atrapalharem mutuamente e se dedicarem integralmente à causa comum - o romance. O autor apresente ao herói uma pessoa importante para o desenrolar da trama. Esta pessoa, por sua vez, apresenta-lhe uma encantadora mulher, pela qual o personagem logo é tomado de uma paixão devoradora e funesta. ..."Fiquei curiosa com a história e resolvi levar o livro para casa. O livro é composto por 6 novelas (entre elas , "O marcador de páginas") realmente surpreendentes. Os títulos das novelas não conseguem de forma alguma abarcar a dimensão que o autor alcança em cada uma delas. O leitor fica surpreso e fascinado.
Krzyzanowski, apesar do nome e sobrenome polonês, nasceu em Kiev (Rússia) em 1887. Morreu em 1950. O marcador de páginas é uma coletânea de narrativas fantásticas escritas entre 1926 e 1939. Os textos trazem um mundo fascinante cheio de metáforas, alegorias e situações absurdas que nos fazem questionar e redimensionar a realidade.
A primeira novela do livro chama-se "O Quadraturin". O personagem Sutúlin é surpreendido um dia com uma porção chamada Quadraturin. A solução deveria ser passada nas paredes internas para aumentar qualquer cômodo. Ele mora num quarto que mais parece uma "caixa de fósforo" e sente-se perplexo e inquieto com tal novidade. Hesita um pouco mas resolve experimentar a tal "bisnaguinha preta". É claro que o que acontece depois você só vai descobrir lendo o livro :-)
Já a novela que dá nome ao livro "O marcador de páginas" é a maior da coletânea. Segundo Nelson Ascher:
"...O conto que dá título à coletânea pode, na ausência de maiores dados sobre sua existência (o autor), ser lido como a combinação sintética de uma autobiografia subjetiva e de uma 'arte poética'. Seu protagonista é o "caçador de temas", um escritor sucessivamente rejeitado pelas editoras, que passa o tempo desenvolvendo oralmente, a partir do que quer que visse por perto, histórias complexas para a platéia circunstancial de uma praça da capital. E, naquilo que relata ao narrador acerca de como um redator rejeitara seu texto, é fácil entreouvir o que teria sido dito, mais de uma vez, a Krzyzanowki em pessoa: 'O senhor tem uma pena. Mas uma pena precisa ser contida por uma caneta, e a caneta, pela mão. Seus contos são ... bem, como vou dizer - prematuros. Esconda-os. Que esperem.' ..."Este é, sem dúvida, um livro marcante que propõe muitas reflexões. É necessária uma certa experiência de leitura para perceber as metáforas e ultrapassar o sentido literal. Uma verdadeira aventura. Quem tiver espírito aventureiro está convidado...
Valéria de Oliveira Alves
Julho/2004